No horizonte de 2026, celebro com o coração em festa o meu Jubileu de Prata Sacerdotal. No próximo dia 02 de fevereiro, completam-se 25 anos desde que o “Sim” ecoou pela primeira vez.
Para preparar o espírito para este momento de graça, senti o apelo de uma “ascese geográfica e espiritual” rumo ao Vale do Paraíba: do colo da Mãe no Santuário Nacional de Aparecida ao silêncio orante do Mosteiro de São João, em Campos do Jordão, culminando na esperança restaurada da Fazenda Esperança, em Guaratinguetá.
Nesta jornada, adotei uma linguagem mística: “Subir à Montanha”. Foi o movimento providencial ao qual o Senhor me conduziu — um retiro de escuta profunda e entrega. Tive como guia e mestre de exercícios o Doutor da Igreja, São Bernardo de Claraval, através de seus Sermões sobre o Cântico dos Cânticos. De fato, vivi a dinâmica do Tabor: subi para contemplar e desci para servir.
É sublime subir o monte para orar, mas é imperativo “desaguar” as torrentes dessa experiência divina no solo sedento do Povo de Deus. No silêncio fecundo do mosteiro, pude revisitar o passado com gratidão, abraçar o presente com lucidez e entregar o futuro, com confiança, às mãos da Providência.
À luz de São Bernardo, a vida sacerdotal despiu-se de qualquer ilusão de “status”, poder ou honraria. Ela revelou-se em sua essência: missão e escolha gratuita. O sacerdócio não sobrepuja o Batismo; antes, nutre-se dele. É a graça sacramental da filiação divina que sustenta a cada dia o meu ministério.
A teologia esponsal de São Bernardo ecoou forte em minha alma: o Cântico dos Cânticos nos apresenta Deus como o Esposo das nossas almas. Nestes 25 anos, Ele foi o meu Esposo fiel, mesmo diante da minha indignidade. Nas minhas quedas, experimentei a doçura do perdão; e quão revigorante foi renovar o pacto de amor com o Amado em uma confissão fecunda na Casa da Mãe Aparecida!
O ministério cristão deve ser o transbordamento da humildade. Compreendi que o abandono nas mãos de Deus não é passividade, mas a coragem de viver o Santo Temor. Como o Rei Salomão, que ao entoar seus louvores não cantou a própria glória, mas a de Cristo, também o sacerdote deve “desaparecer” para que o Esposo brilhe. Ele é o Cântico; nós somos apenas o eco!
Neste quarto de século, entre fidelidades e fragilidades, o Espírito reacendeu em mim o “Primeiro Amor”. A ascese da penitência e a beleza da continência não são fardos, mas caminhos de conversão que me permitem levantar a cabeça do pó, restaurado pela graça que tudo cura.
Outro fruto desta “subida” foi o chamado ao equilíbrio entre o temporal e o eterno, o corporal e o espiritual. O sacerdote é chamado a ser uma Imago Christi. Para isso, urge uma espiritualidade eucarística — um olhar contemplativo que atravessa as névoas do mundo para fixar-se nos bens imperecíveis.
Deus, o Divino Artesão, revela-se na discrição. Aprendi que meu agir sacerdotal deve espelhar essa simplicidade: ser humilde na forma, mas corajoso no anúncio, sem nunca deixar que a Misericórdia — o próprio rosto de Deus — saia de cena.
Concluo afirmando que foram dias de uma intimidade incandescente. Experimentei o que São Bernardo chama de AMOR SACRO: o amor sem medidas que abraça a nossa fraqueza e a transforma em força.
Agora, é hora de “descer a montanha”. Volto à planície da missão levando comigo o “tempero do Espírito”. Como nos ensina o santo de Claraval, a Palavra de Deus é esse tempero essencial que dá sabor à vocação e nos protege de um mundo que, em sua evolução constante, tenta roubar o lugar do Sagrado.
Louvado seja Deus por estes 25 anos! Que o meu ministério continue sendo um caminho de santificação, até que o Esposo venha e nos introduza definitivamente em Suas núpcias eternas.
Pe. Marcelo Campos da Silva D’Ippolito
Pároco da paróquia Nossa Senhora da Conceição- Rio das Ostras/RJ