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Acreditastes porque me viste?


Passado o terror da crucificação, os discípulos de Jesus ainda não compreendiam o que havia acontecido. Em seus corações havia um misto de medo, angústia e tristeza. O seu Mestre havia sido morto, o que poderia acontecer com os que o seguiam? Como haveria de cumprir suas palavras? Tudo não havia passado de um desvario?

O primeiro dia da semana após todo aquele pesadelo foi marcado pelos sinais do ressuscitado. Logo pela manhã, Madalena depara-se com a pedra do sepulcro removida e encontra com Jesus. Os discípulos, Pedro e João, também foram ao túmulo e, avistando a pedra removida e os panos ao chão, acreditaram. Ao entardecer daquele mesmo dia, o Senhor entrou no lugar onde eles se encontravam trancados, por medo dos judeus. Contudo, Tomé não estava com eles, e não pode, pois, ver o Senhor nem ouvir as suas palavras consoladoras (cf Jo 20, 19 – 31).

Foi Tomé que diante da decisão de Jesus de ir ao encontro do perigo disse: “Vamos também nós, para morrermos com ele” (Jo 11, 16b). E, também foi ele que na última ceia manifestou seu desejo de seguir Jesus: “Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (Jo 14, 5).

A conhecida falta de fé de Tomé, é na verdade um sufocamento da esperança causado pela profunda dor de testemunhar a crucificação e morte do seu amado Mestre. Sua angústia era tamanha que precisava de sinais concretos da Ressurreição.

Quantas vezes não condenamos Tomé por sua crise de fé? Como pôde ele, que conviveu com Jesus, ouviu sua pregação, viu os sinais que realizava, duvidar? Pensamentos como este revelam que estamos contaminados pela vaidade do perfeccionismo.

O Papa Francisco, ao refletir sobre a crise de fé de São Tomé, revela que “Muitas vezes elas (as crises) nos tornam humildes, porque nos despojam da ideia de ter razão, de ser melhores do que os outros. As crises nos ajudam a reconhecer que estamos necessitados: despertam nossa necessidade de Deus e assim nos permitem retornar ao Senhor, tocar suas feridas, voltar a experimentar o seu amor”. Assim, insiste o Papa Francisco: “É melhor uma fé imperfeita, mas humilde, que sempre regressa a Jesus, do que uma fé forte, mas presunçosa, que nos torna orgulhosos e arrogantes". (Regina Coeli, 24 abr. 2022).

As dúvidas de Tomé serviram para que a fé dos que mais tarde haveriam de crer no Senhor ressuscitado fosse confirmada. São Gregório Magno disse certa vez: “porventura pensais que foi um simples acaso que aquele discípulo escolhido estivesse ausente, e que depois, ao voltar, ouvisse relatar a aparição e, ao ouvir, duvidasse, e, duvidando, apalpasse, e, apalpando, acreditasse? (...) A divina clemência agiu de modo admirável quando este discípulo que duvidava tocou as feridas da carne do seu Mestre, pois assim curava em nós as chagas da incredulidade" (Homilias sobre os Evangelhos, 26, 7).

Aquele que ficara conhecido por duvidar do testemunho do ressuscitado, fora também aquele que, depois de tocar as chagas de Jesus, manteve-se firme na fé a ponto de entregar a própria vida nas mãos dos perseguidores.

Diante disso, recai sobre nós a responsabilidade de dar um testemunho firme e consciente de nossa fé naquele que venceu a morte e deu-nos a vida. Mesmo que durante alguns momentos difíceis, ou um período de crise, nos fechemos em nós mesmos, nos refugiemos nos nossos problemas, voltemos ao Senhor, revelando assim, que é Dele que vem a nossa força e é Nele que alimentamos nossa esperança.


Nova Friburgo-RJ, 26 de abril de 2022


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Assessor Diocesano da Pastoral da Comunicação


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