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O grito do silêncio


“Para onde vão nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?” Esta semana me deparei com este questionamento da Mafalda, a famosa e perspicaz personagem em quadrinho de Joaquín Salvador Lavado. A dúvida de Mafalda gerou em mim um certo incômodo, o que me levou a escrever esta reflexão.

Analisando o cotidiano de nossa sociedade, percebi que muitas vezes somos levados a calar a voz do que sentimos ou pensamos para nos enquadrarmos num pseudoparadigma do que é certo ou errado.

As redes sociais estão cheias de pessoas felizes e sorridentes, o que faz parecer uma realidade paralela quando comparada a vida real. Seguimos uma ditadura do bem-estar, do super-homem.

Forçados a calar a voz dos sentimentos, da própria identidade, na tentativa de se enquadrar nos ditames da cultura hodierna, a humanidade é levada a ignorar a voz da sua própria essência. E, esquecendo-se de que a vulnerabilidade à dor é o que nos torna humanos, calamos o que sentimos e acabamos por sucumbir a transtornos, doenças e a morte.

Desde crianças somos obrigados a segurar as emoções. Quantas vezes ouvimos que chorar é “sinal de fraqueza”. Desde muito pequenos, vamos sendo castrados em nossos sentimentos e emoções. E, quando podemos tomar nossas próprias decisões, em nome de “convenções da sociedade”, seguramos nossa raiva, nossa indignação, não abraçamos nossos amigos e nossos pais.

Quando percebemos nos tornamos um poço de sentimentos que precisam sair de alguma forma. Se não as expressamos do modo correto, estes sentimentos calados passam a se manifestar em forma de raiva e/ou tristeza, e por muitas vezes nos levam a depressão e à morte. Quanto mais tempo sofremos calado, mais doente ficamos.

A dor faz parte da nossa condição humana e por isso não pode ser negligenciada e calada. Não é porque se sofre que se é mais fraco.

O Papa Bento XVI adverte que “aqueles que diante do sofrimento só sabem dizer que ele deve ser combatido nos enganam” e completa dizendo que, sem dúvida, é preciso fazer tudo para aliviar o sofrimento dos inocentes e limitar a dor. Contudo, não se pode esquecer que não existe vida humana sem sofrimento e que ele é fonte de amadurecimento humano (cf. RATIZINGER, J. Compreender a Igreja hoje. P. 85).

Jesus em sua vida pública foi capaz de perceber o grito de dor silenciado no coração das pessoas. A mulher pecadora silenciada sob o grito da multidão teve sua dor ouvida pelo Salvador. Ele foi capaz de levantá-la e de fazê-la uma voz a gritar que a lei do amor e da misericórdia é capaz de superar e curar o pecado.

Ela não foi a única a ser percebida por Jesus. Zaqueu, Mateus, o Cego de Jericó, os leprosos e todo aquele que fora silenciado pela ditadura cruel da aparência encontrou em Jesus um ouvinte sincero, leal e compassivo.

Seguindo os passos de Jesus, somos chamados a estar atentos às dores caladas de nossa sociedade e proporcionar lugares de fala e escuta aos que sofrem. Seremos capazes de aliviar as dores do mundo quando formos capazes de dar voz e vez a todos.


Nova Friburgo-RJ, 18 de janeiro de 2022


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Assessor Diocesano da Pastoral da Comunicação


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