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O banquete no inferno e o banquete no Céu


Diz certo conto popular que certa vez Deus convidou uma alma santa para conhecer o céu e o inferno. Ao se abrirem as portas do inferno, era possível ver uma grande sala em cujo centro havia um caldeirão onde se cozinhava uma suculenta sopa. Em volta dela, estavam sentadas pessoas famintas e desesperadas. Cada uma dessas pessoas segurava uma colher de cabo tão comprido que lhes permitia alcançar o caldeirão, mas não suas próprias bocas. O sofrimento era imenso, pois mesmo diante de um alimento tão saboroso não conseguiam se alimentar.

Em seguida, a alma foi levada para conhecer o céu. Ao se abrirem as portas, grande foi a surpresa em encontrar uma sala idêntica à que havia no inferno. No centro do salão o mesmo caldeirão, as pessoas em volta, as colheres de cabo comprido. Mas uma diferença grande era percebida, havia alegria e satisfação.

Diante do contraditório quadro, a alma ficou confusa e questionou a Deus: - Eu não compreendo, por que no céu estas pessoas estão felizes, enquanto no inferno todos morrem de aflição, se é tudo igual?

Deus sorriu e respondeu: - Você não percebeu? É porque enquanto no inferno aquelas pessoas estão fechadas na busca de suas próprias satisfações, aqui, no céu, estas aprenderam a olhar a necessidade de quem está ao seu redor. E entenderam que ao saciar o irmão tem a sua própria necessidade saciada.

Esta historieta, apesar de sua inocente aparência, denuncia um grave pecado de nosso século: o individualismo. Vivemos a cultura da “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Importa somente que nós estejamos saciados, a dor do outro não nos toca, não nos diz respeito.

O Papa Francisco, na Encíclica Fratelli Tutti, denunciou: “O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade. Nem pode sequer preservar-nos de tantos males, que se tornam cada vez mais globais. Mas o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar à rédea solta as próprias ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum” (§105).

É gritante a contradição com as palavras do Evangelho. Basta lembramos da icônica cena da multiplicação dos pães. Enquanto os discípulos estavam preocupados com o seu próprio bem-estar, Jesus os convida a pôr em comum o que possuíam, e assim foi possível alimentar, com fartura, toda a multidão (cf. Jo 6,1-15). Ou, ainda, o louvor ao gesto da viúva que dando apenas duas moedas deu mais que todos, pois partilhou tudo o que possuía (cf. Mc 12.38-44).

O tempo do Advento alimenta em nós a esperança de um mundo novo com a chegada no menino Deus. Mas como podemos levantar a cabeça e não nos deixamos absorver pelas dificuldades, pelos sofrimentos e pelas derrotas? Jesus indica-nos o caminho com um forte apelo: “Tende cuidado convosco: que os vossos corações não se tornem pesados [...]. Velai, orando continuamente” (Lc 21,34.36).

Assim, na proximidade da grande festa do Natal, busquemos superar as divisões e indiferenças da comunidade atual construindo ações reais que favoreçam o bem comum e a dignidade de nossos irmãos.


Nova Friburgo-RJ, 29 de novembro de 2021


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Assessor Diocesano da Pastoral da Comunicação


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