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Irmã morte


Todos os anos, no mês de novembro, fazemos uma pausa de nossas atividades cotidianas para nos lembrarmos de nossos irmãos e irmãs, parentes e amigos, que já partiram do nosso convívio. Refletir sobre a morte sempre foi importante para a humanidade, quanto mais nos é neste momento que estamos vivendo.

Passados quase dois anos do início da pandemia, os números de mortes ainda nos assustam. Muitas pessoas que ocupam um lugar importante em nossa peregrinação, através do tempo e da história, largaram suas mãos de nossas mãos.

Contemplar a morte tão de perto nos faz pensar sobre nossa finitude e sobre o que estamos cultivando nesta vida. Nem sempre é possível encarar com serenidade a chegada desse final inevitável para todos. A humanidade tem um desejo incontrolável de vida. Construímos nossa existência com momentos marcantes, planejamos o futuro sem nos dar conta que um dia esta vida será abruptamente interrompida. Não há quem um dia não enfrente o mistério da morte.

Contudo, não se pode delegar somente um aspecto negativo sobre este momento ímpar de nossa existência. Ao vivenciar o processo do fim, num primeiro momento poderíamos repetir como o Autor Sagrado “Tanto morre o sábio como morre o louco! E assim detestei a vida, pois a meus olhos tudo é mau no que se passa debaixo do sol; sim, tudo é efêmero e vento que passa. Também se tornou odioso para mim todo o trabalho que produzi debaixo do sol, visto que devo deixá-lo àquele que virá depois de mim” (Ecle 2, 16b-18).

Mas, é importante recordar que ao contemplar todo o caminho de sua existência, o mesmo autor conclui: “que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida. Igualmente é dom de Deus que todos possam comer, beber e gozar do fruto de seu trabalho. Reconheci que tudo o que Deus faz dura para sempre, sem que se possa ajuntar nada, nem nada suprimir. Deus procede dessa maneira para ser temido. Aquilo que é, já existia, e aquilo que há de ser, já existiu; Deus chama de novo o que passou" (Ecle 3, 12-14).

Assim, compreendemos que a morte é um processo natural da vida, com todas as finitudes que ela possui (doenças, enfermidades, idade). São Francisco de Assis chama a morte de irmã, pois a vê como aquela que no fim do decurso nesta vida nos dá a mão e nos conduz ao bem supremo. Como um autêntico arauto da Paz, Francisco, jamais diria ‘bem-vinda irmã morte’ quando ela é consequência do pecado humano. O Santo de Assis gritaria ao mundo de hoje:

“Maldita a morte causada por toda a violência armada; maldita a morte causada pela fome em consequência da não partilha; maldita a morte provocada pela privação dos direitos sociais, causada pelo enriquecimento ilícito dos que legislam em causa própria; maldita a morte causada pela disseminação da segregação racial, ideológica e religiosa. Enfim, maldita a morte que destrói a vida das nossas florestas; maldita a morte, fruto dos produtos tóxicos despejados sobre o alimento; maldita a morte dos nossos rios, resultado da ganância das mineradoras; maldita a morte das nossas praias nordestinas, causada pela omissão dos primeiros responsáveis e pela ganância” (Frei Fidêncio Vanboemmel).


Nova Friburgo-RJ, 03 de novembro de 2021


Pe Aurecir Martins de Melo Júnior
Assessor Diocesano da Pastoral da Comunicação


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