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Dom da escuta


Na vivência eclesial, o mês de setembro é marcado pela meditação mais intensa da Sagrada Escritura. O Mês da Bíblia é um evento que tem como objetivo incentivar e valorizar a escuta da Palavra de Deus.

Desde 1971, a Igreja no Brasil oferece aos fiéis temas que favoreçam o aprofundamento e conhecimento dos mistérios e planos do Senhor. Este ano a proposta de estudo é a Carta de São Paulo Apóstolo aos Gálatas com o seguinte lema: “Pois todos vós sois UM só em Cristo Jesus”.

O mês de setembro também recebeu outra importante campanha de conscientização: “Setembro Amarelo”. Dentre as muitas e importantes ações, está a conscientização do valor da escuta.

A cultura atual tem nos conduzido ao mais terrível isolamento social, aquele que se faz atuante mesmo quando está cercado de pessoas. Há um certo ar de desconfiança em todas as relações que nos bloqueia e nos faz crer que não se pode mostrar fraqueza ou dor. Somos marcados com a dupla insensatez de não saber ouvir e não saber (poder) falar. Criamos um mundo utópico maquiando a realidade vivida pela obrigação de estar sempre bem, o que favorece o advento da desconfiança mútua e o aprisionamento em si, nas suas próprias dores e angústias. Não há espaço para grupos de partilhas sinceras e destemidas. As relações estão cada vez mais poluídas pela vaidade e pelo orgulho.

O Papa Francisco ao refletir a palavra “insensato”, aplicada por Jesus aos fariseus no Evangelho de Lucas (11, 37-41), adverte que “a insensatez é não escutar, literalmente ‘não saber’, ‘não ouvir’: a incapacidade de escutar a Palavra. Quando a Palavra não entra, eu não a deixo entrar porque não a escuto. O tolo não escuta. Ele crê que ouve, mas não ouve, não escuta. Faz sempre como acha, sempre. E, por isso, a Palavra de Deus não pode entrar no coração e não há lugar para o amor. E quando entra, entra destilada, transformada pela minha concepção da realidade. Os tolos não sabem ouvir. E esta surdez os leva à corrupção. Quando não entra a Palavra de Deus, não há lugar para o amor e enfim, não há espaço para a liberdade” (Homilia Matutina, 17 out. 2017).

É urgente ouvir a voz de Deus que nos chama à reconciliação e ao amor, porém se estivermos preocupados demais em disfarçar nossas fraquezas, não seremos capazes de ir ao encontro dos que precisam de nós. O dom da escuta sincera, orante, o mais possível livre de preconceitos e condições nos permitirá entrar em comunhão com as diferentes situações que vivem nossos irmãos. Ouvir a Deus, para escutar com Ele o clamor do povo; ouvir o povo, para respirar com ele a vontade a que Deus nos chama (cf. Papa Francisco, Discurso na Vigília de Oração preparatória para o Sínodo sobre a família, 4 de outubro de 2014).

Façamos de nossa vida um receptáculo aberto, disponível a acolher, a ouvir, a valorizar o outro com suas experiências, dores e alegrias.


Nova Friburgo-RJ, 22 de setembro de 2021


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Padre Aurecir Martins de Melo Junior


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