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O sentido do sofrimento


Diante de uma visão panorâmica da sociedade contemporânea, desfila-se um quadro sobre um dos temas que estão entre as principais perguntas existenciais do homem: Qual o sentido do sofrimento? As práticas do homem moderno, suas ideologias e a compreensão da essência da humanidade parecem sempre caminhar para uma total negação do sofrimento e uma busca desenfreada pelo prazer. Neste sentido, o ser humano foge ou nega tudo aquilo que pode lhe proporcionar qualquer tipo de desprazer. Não é à toa que numa sociedade como a que vivemos impere a lei do menor esforço, da vantagem, do individualismo, do egoísmo e do hedonismo.

No entanto, o sofrimento faz parte da existência humana. Não se pode evitá-lo. Ele é uma realidade! Mesmo que em graus diferentes algum dia todos se encontrarão com ele. Assim, aumenta a angústia do homem frente a esta realidade da qual não se pode fugir. Algumas correntes teológicas baseadas na concepção de que o Deus criou o homem para a felicidade, seguem o mesmo caminho da sociedade hedonista. A busca pelo prazer e pela satisfação, por vezes, vem mascarada de prosperidade garantida por Deus àqueles que professam nele a sua fé. Ou ainda a negação do sofrimento como uma realidade permitida por Deus, e que, por isso, deve ser superada.

A fé católica, centrada no exemplo de Cristo, que padeceu e se entregou ao sacrifício como livre oferta de amor, não pode se fundar sob o pretexto de proclamar a felicidade eterna em um mundo futuro. A fé não pode alienar-se à angústia do ser humano, muito menos subestimar o seu valor. Primeiramente, a fé destaca que o mal e o sofrimento sempre estiveram presentes na história e na humanidade. Depois, observa que, em grande parte, a fonte do mal e do sofrimento humano é o coração do homem, nos seus reflexos egoístas, no apetite pelo prazer e pelo poder, principalmente na dureza do coração. Fatos estes já apresentados como consequência da busca de uma vida sem tribulações.

Logo, a busca de uma vida assim gera ainda mais sofrimento. Pode parecer então que não existe esperança para quem sofre, contudo a revelação bíblica e a fé cristã incentivam o homem na busca de caminhos que o conduzem a uma mudança, apelando ao livre arbítrio e para o senso de responsabilidade. Afirma ainda a Igreja que a presença de dores e alegrias na vida dos povos é uma ação de Deus, para que tudo concorra para o bem dos que o amam.

Para além da tentativa de compreender e situar o sofrimento na vida do homem, a Igreja defende junto com São Paulo o gozo no sofrer e assim convida aos que sofrem a entrarem no sentido salvífico do sofrimento. A especificidade do agir cristão diante da angústia é testemunhada na pregação apostólica e no testemunho dos mártires. Entendem que seu sofrimento é uma forte via de união ao sacrifício de Cristo por toda a humanidade.

Por isso, ao invés de ser negado, evitado ou superado o sofrimento deve ser abraçado por amor a Cristo e à sua Igreja, mas não com mera passividade, e sim livre acolhimento e testemunha de amor ao sofrimento.


Nova Friburgo-RJ, 27 de julho de 2021


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Assessor Diocesano da Pastoral da Comunicação


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