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Dar vez a quem não tem vez, dar voz a quem não tem voz


É chegada a Semana das semanas. Os dias que antecedem a grande Solenidade da Páscoa possuem um caráter de grande reflexão e esperança. Celebrar a ressurreição de Jesus é celebrar a vitória da vida sobre a morte.

Contemplando os passos da Paixão, somos levados a refletir as dores da humanidade. Olhar o Cristo chagado, escarnecido, humilhado é olhar a condição de muitos irmãos e irmãs relegados a condições subumanas em nossa sociedade.

A crise mundial causada pela Covid-19, unida e aguçada pelas chagas da desigualdade social, da devastadora discriminação e do descaso das autoridades com os menos favorecidos, sem dúvida alguma, revela o quanto se faz necessário e urgente pensar e promover, além da cura ao novo coronavírus, a cura ao vírus da injustiça social.

As doenças sociais se agravaram muito neste tempo pandêmico. Todos os dias, somos surpreendidos por inacreditáveis informações que noticiam a corrupção, fruto de corações endurecidos que não veem como sofre o povo. Quantas mortes poderiam ser evitadas com políticas públicas justas e comprometidas com o bem comum?

São histórias estarrecedoras de irmãos nossos que, privados da assistência mínima, veem suas vidas prematuramente ceifadas. Nosso país segue, a cada dia, batendo o recorde do número de mortes causadas pela Covid-19. Isso sem contar aqueles que morrem sem auxílio médico.

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro registrou que no período entre abril e junho de 2020, somente em nosso estado, ao menos 730 pessoas morreram à espera de um leito de enfermaria ou UTI. Hoje, de acordo com a Secretaria estadual de Saúde, em todo território fluminense 678 pessoas aguardam uma vaga de terapia intensiva. Número que, apesar de assustador, cresce quando enumeramos a precariedade dos hospitais na falta de insumos básicos.

No início do ano, o Papa Francisco alertou para a instabilidade do tempo presente e advertiu: “Sabemos que as coisas vão melhorar na medida em que, com a ajuda de Deus, trabalharmos juntos para o bem comum, colocando no centro os mais fracos e desfavorecidos” (Angelus, 3 jan. 2021).

O imperativo “estende a tua mão ao pobre” (Eclo 7, 32) ressoa com toda a densidade do seu significado. Precisamos nos responsabilizar no auxílio aos irmãos. Concentrar o nosso olhar no essencial e superar as barreiras da indiferença à dor alheia. Em tempo como este é urgente lançar mão de nossos direitos e deveres cívicos e exigir o mínimo necessário a salvar vidas de tantos irmãos e irmãs.

Façamos o caminho da paixão, consolando nos irmãos o coração de Deus. “Ao longo da via sacra diária, encontramos os rostos de tantos irmãos e irmãs em dificuldade: não passemos adiante, deixemos que o coração seja movido à compaixão e nos aproximemos. No momento, como o Cirineu, poderemos pensar: "Por que logo eu?" Mas depois descobriremos o presente que, sem nosso mérito, nos foi dado” (Papa Francisco, Angelus, 28 mar. 2021).

Lembrando que a pobreza assume sempre rostos diferentes, que exigem atenção a cada condição particular, sejamos nós voz daqueles que foram silenciados pela esmagadora indiferença e injustiça.


Nova Friburgo-RJ, 30 de maro de 2021


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Assessor Diocesano da Pastoral da Comunicação


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