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Fraternidade e diálogo


O período quaresmal é um momento de preparação para a grande festa da páscoa. Durante este tempo a Igreja nos propõe os exercícios espirituais do jejum, esmola e oração.

O jejum nos faz experimentar o esvaziamento, a expropriação, a libertação dos bens materiais abrindo nosso coração à fome de Deus e à disponibilidade de saciar a fome dos irmãos. Já a esmola é partilha, misericórdia, cuidado, entrega. O seu exercício é a verdadeira dinâmica do amor divino e nasce do encontro do tesouro escondido (cf. Mt 13, 44-46). A oração é fonte de intimidade entre um coração desapegado do homem e o coração misericordioso de Deus.

A prática destes exercícios nos auxilia no caminho de conversão e mudança de vida, desperta em nós a necessidade de partilha e nos aproxima em fraternidade. Todos os anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos apresenta a Campanha da Fraternidade como um caminho pessoal, comunitário e social de conversão e culminância das práticas quaresmais.

Num tempo de radicalizações e de polarizações no qual pululam conflitos, violência, racismos, xenofobias e outras práticas de ódio, se faz urgente a reflexão sobre a necessidade de superarmos a diferença e, em diálogo, nos unir na construção e propagação de um mundo mais justo e fraterno.

O tema “Fraternidade e diálogo”, em certa medida, parece ser redundante. Pois é certo que a prática religiosa conduz necessariamente ao diálogo e ao respeito aos irmãos. Infelizmente, para alguns esta certeza ainda não foi alcançada. Podemos, evocando o testemunho da história, enumerar várias situações em que o nome de Deus foi usado em discursos políticos carregados de ódio ou para justificar diversos genocídios. Ou ainda, ao abrir as redes sociais nos deparamos com inúmeros discursos cheios de ódio numa tentativa estéril de defender a fé.

As palavras do Papa Francisco na visita à cidade de Ur, no Iraque, enriquecem nossa reflexão: “os bens do mundo, que fazem muitos esquecer-se de Deus e dos outros, não são o motivo da nossa viagem sobre a terra. Erguemos os olhos ao Céu para nos elevarmos das torpezas da vaidade; servimos a Deus, para sair da escravidão do próprio eu, porque Deus nos impele a amar. Esta é a verdadeira religiosidade: adorar a Deus e amar o próximo. No mundo atual, que muitas vezes se esquece do Altíssimo ou oferece uma imagem distorcida d’Ele, os crentes são chamados a testemunhar a sua bondade, mostrar a sua paternidade através da nossa fraternidade” (06 mar. 2021).

Ao nos entregarmos à prática dos exercícios quaresmais, nos libertamos das paixões terrenas e do nosso próprio egoísmo. Nos tornamos capazes de ouvir o outro e respeitá-lo como um irmão, um igual, que caminha conosco ao encontro do amoroso coração de Deus. Somos chamados a “abrir o coração ao companheiro de estrada sem medos nem desconfianças, e olhar primariamente para o que procuramos: a paz no rosto do único Deus” (Exort. Apost. Evangelii gaudium, n. 244). 


Nova Friburgo-RJ, 16 de maro de 2021


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Padre Aurecir Martins de Melo Junior


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