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O castigo da culpa e o alívio da inocência


Não é fácil lidar com a culpa de nossos erros, ainda mais quando a redenção não pode ser encontrada nos quais esperávamos compaixão. Não estou falando da culpa advinda do crime e das maldades da corrupção. Falo de coisa mais corriqueira: da culpa que nos acompanha quando a consciência nos reprova e traz à tona, pela memória, os momentos onde faltou amor.

O próprio peso da culpa já faz parte do processo de restauração pelo qual precisamos passar se quisermos superá-la rumo à maturidade humana. Temos aqui um princípio muito claro da moral: a consciência como nosso juiz. Ela pode se transformar em um monstro que purga nossas penas de modo positivo, na ordem da libertação. Ou, no pior dos casos, será um pesadelo que só tende a crescer na medida em que não enfrentarmos o monstro. Vou tentar exemplificar através da literatura russa.

O romance de Dostoiéviski, Os Irmãos Karamazóv, logo no início traça com muita clareza o temperamento do pai de três filhos bastante diferentes entre si. Fiódor Pávlovitch era um homem entregue aos seus desejos carnais, ganhando dinheiro à custa de heranças alheias. Foi chamado de “um ser parasita”, abjeto aos olhos e ofensivo nas palavras. Apesar da fortuna, era sempre mesquinho em relação aos seus bens e quase nunca teve contato com os filhos. Quando o mais novo, Alexei, puro e casto, aos vinte anos passou a morar e conviver na casa do pai, lugar de orgias e devassidão, tornou-se uma espécie de acusador de seus erros sem nunca ter dito nada. Na mente do pai a culpa levava-o a imaginar que, apesar do silêncio do filho, este não deixava de pensar mal dele.

Primeira conclusão: na consciência do culpado empedernido a culpa é um juiz implacável; é um severo juízo que leva o culpado a um quase verdadeiro inferno de reprovações interiores que ele precisa dar nome. O culpado se acusa sem o perceber, já que a culpa o leva a se defender sem antes ser recriminado. Daí ele passa a interpretar as atitudes daqueles que convivem consigo como suspeitas e cheias de reprovação, e a imaginação flui ao ponto de sabotar o próprio culpado, concluindo que todos estão contra ele por causa de seus erros, mudando o foco da culpa sem sucesso.

Agora, porém, quero fazer notar o posicionamento de Alexei diante do pai devasso que encontrou perto de si a compaixão. Alexei silencia e não quer ser juiz de ninguém, apesar de ficar triste com os erros dos outros, não demonstra nenhuma atitude de desprezo. Com isso, o pai, que antes o acolheu e o interpretou mal, torna-se amável com o filho e passa a chorar em seus braços, desenvolvendo um amor sincero que até então nunca havia sentido por ninguém.

Segundo ensinamento: o castigo da culpa pode ser aliviado pelo amor da inocência. Ao alimentar somente o amor em seu coração, sem querer ser juiz de ninguém, mesmo sabendo o que estava errado, Alexei atrai os pecadores, os quais passam a despertar o melhor que ainda possuem em seu coração. Há pessoas assim, capazes de fazer surgir o melhor que há em nós, sem concordar com nossos erros, mas tão pouco desprezar-nos por causa deles.

Enfim, o verdadeiro puro de coração, antes de ser juiz dos outros, o é de si mesmo e não fica buscando erros alheios para aliviar a culpa dos seus. Antes, sabe se perdoar e, deste modo, perdoa aos outros sem permitir distanciamento ou frieza. E isso acontece de modo espontâneo. É fato: quando a santidade de vida cresce em nós, paramos de enxergar os defeitos dos outros como juízes implacáveis, pois já não os possuímos.

Diante desta reflexão, desejo a todos que este Tempo Quaresmal seja um fecundo período de sincera conversão e vivência profunda do amor.


Nova Friburgo-RJ, 23 de fevereiro de 2021


Pe. Celso Henrique Diniz


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