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Feliz você novo!


Vivemos um momento que se reveste de um certo encantamento, uma aura de otimismo e felicitações, com uma enxurrada de planos, projetos, promessas e até previsões! "Feliz ano novo! Feliz ano bom! Este será um novo tempo de tudo melhor para todos!"

Se refletirmos com a lógica filosófica, simplesmente chegaremos à conclusão: o tempo não existe. Não é um ser. É um conceito relativo ao ser existente. Sempre está associado às mudanças e transformações dos seres. "O tempo é a medida do movimento", como afirmava o grande filósofo Aristóteles. E o movimento é a característica da imperfeição. Não no sentido negativo, mas na dimensão da incompleição. É a medida do que ainda não perfez a sua potencialidade e para transformá-la em ato, precisa mudar, mover-se. Assim, o movimento é a mudança da potência para o ato.

Se não mudarmos nós, não há um "tempo místico" que trará tudo magicamente. Se não formos bons para fazer o ano, ele continuará velho e mau. Se não formos novos para construir o futuro, renovação será apenas uma palavra sem sentido, repetida como um clichê. E 2021? Apenas um algarismo inócuo se não tiver a rocha dos valores e das virtudes, com o crescer na Verdade de 2020!

Outro grande filósofo, Santo Agostinho, dizia que o tempo era interior, existindo apenas na mente, fixando os três presentes: o presente do passado que é a memória; o presente do presente - a percepção e o presente do futuro - a espera.

Podemos, então, dizer que o tempo é um ser de razão, não é real. O que existe é a mudança, nos fatos, estruturas e pessoas que são registrados numa linha convencional, armazenados na memória, definindo uma identidade. Isto se chama passado. Mas não é, "já foi". Existe apenas no sujeito como experiência ou conhecimento. O presente também não é, porque é fluídico, "está sendo" e deve ser vivido na sua dinamicidade a partir da consciência e escolhas. O futuro "ainda não é", é uma prospecção a partir do que se constrói no agora. Logo o que há é o nosso eu consciente e livre, desenvolvendo-se e definindo-se na história, mutando-se, em geral positivamente numa evolução. Mas, também, muitas vezes, involuindo, num movimento de perdas, oposições ao ser, destruições e decrepitude.

O fluxo contínuo e irrefreável da existência humana no horizonte histórico apresenta uma dialética de crescimento-limitação, namorando com a sabedoria. Se alguém souber desenvolver o seu potencial espiritual, de conhecimento, amor e arte, aliado a uma dosagem-despojamento corporal, conseguirá uma síntese adequada a cada fase da vida, sem os excessos, nem as carências. Tudo num "tempo" certo, ou seja, com as escolhas certas, amadurecidas, num discernimento de serena progressividade.

Feliz, então, o Novo que a cada ano bonifica o presente com um passado de futuro-luz, sem propósito vazio, mas com alicerce sólido de aperfeiçoamento pessoal. Feliz o ano "velho" que é base segura, plantada com dedicação e Graça. E é preciso agradecer pelas lutas e conquistas que, semeadas entre risos e lágrimas, são frutos que qualificam, são provas que purificam, bençãos que iluminam, flores que perfumam o ciclo que virá!

Projeções, promessas, votos  e desejos são manifestações ocas e sem nexo, sem a âncora dos princípios, sem o trabalho e o espírito fraterno, sem o foco e a perseguição do Bem Maior. O místico repousa no humano, plenamente humano, suado, plantado, lutado, na partilha dos dons e talentos, na construção comum para o crescimento de todos.

Boas festas serão sempre aquelas em que o homem seja o principal valor, inegociável, celebrado. A dignidade humana resgatada em fogos, espocando a igualdade e a liberdade, num espetáculo de amor e solidariedade - a comunhão dos corações irmanados - onde a comida e a bebida e outros elementos materiais sejam apenas o cenário e nunca os protagonistas do encontro, o centro das buscas, o pálido norte vital.

Que esta passagem entusiasta seja feita sobre a firme entrega e mergulho no horizonte divino, em que a doação e a gratuidade derrotem a ambição e a usura, em que a razão vença a loucura, em que a humildade desconcerte a soberba, na qual todo egoísmo se dissolva ante a partilha do Amor!

Então toda vida será nova! Todo número será feliz, sem nenhuma discriminação ou gematria. Toda expectativa estará grávida de um filho bem gerado na intimidade do que se semeou.

Feliz Você Novo - 2021! Com muita saúde, paz e frutos!


Nova Friburgo-RJ, 29 de dezembro de 2020


Pe. Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça
Assessor Eclesiástico da Pastoral Familiar e da Comunicação da Diocese de Nova Friburgo


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