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Ver Jesus nos pobres


No último domingo (15/11) celebramos o Dia Mundial dos Pobres, instituído pelo Papa Francisco há quatro anos. A referida data tem como principal intenção conduzir nossa reflexão e atenção às necessidades dos irmãos menos favorecidos e à nossa responsabilidade na construção de um mundo melhor.

O Sumo Pontífice faz um apelo à humanidade: “Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz” (Mensagem para o I Dia Mundial dos Pobres, 19 no. 2017).

O cuidado com os mais necessitados deve se tornar uma constante na vivência comunitária, não se pode resumir a um ato isolado, ou a um mecanismo para alívio da consciência.

Diante desta realidade somos chamados “a estender a mão aos pobres, a encontrá-los, fixá-los nos olhos, abraçá-los, para lhes fazer sentir o calor do amor que rompe o círculo da solidão” (idem). Se queremos encontrar Jesus é preciso sair das nossas certezas e comodidades, caminhar em direção às fragilidades de nossos irmãos e tocar em suas chagas o corpo chagado do próprio Cristo.  

Na mensagem para celebração deste ano, o Papa Francisco toma como ponto de partida as palavras do livro do Eclesiástico: “estende sua mão ao pobre” (Eclo 1,36), chamando atenção para a densidade do seu significado nos dias de hoje. É preciso concentrar o olhar no que é essencial e superar as barreiras da indiferença.

A Palavra de Deus ultrapassa o espaço, o tempo, as religiões e as culturas. A generosidade que apoia o vulnerável, consola o aflito, mitiga os sofrimentos, devolve dignidade a quem dela está privado, é condição para uma vida plenamente humana. A opção de prestar atenção aos pobres, às suas muitas e variadas carências, não pode ser condicionada pelo tempo disponível ou por interesses privados, nem por projetos pastorais ou sociais desencarnados. Não se pode sufocar a força da graça de Deus pela tendência narcisista de se colocar sempre a si mesmo no primeiro lugar” (Mensagem para o IV Dia Mundial dos Pobres, 15 nov. 2020).

A cultura atual nos empurra para uma vivência individualista e despreocupada com a triste realidade com os que sofrem. Encerrados em suas bolhas, os indivíduos atravessam a vida preocupados somente com o momento presente e com o seu bem estar. A grande tentação do mundo atual é pensar que a existência é nossa de modo absoluto, como se tivéssemos criado a nós mesmos, sendo capazes de viver sozinhos, valorizando somente o que pode nos devolver favores.

Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe” (Evangelii gaudium, 54)

Num mundo cheio de distrações, novidades e produtos a serem consumidos, é urgente manter o olhar voltado para o irmão em situação de vulnerabilidade social e imprimir a justa direção à nossa vida pessoal e social.

O cuidado com o pobre deve ser encarnado, comprometido concretamente com a vida, e não apenas alicerçado no uso de muitas palavras. Tomemos, pois, nosso lugar na construção da fraternidade e amizade social (cf. Fratelli Tutti), deixando a indiferença e o cinismo em ignorar as feridas e dores de nossos irmãos.


Nova Friburgo-RJ, 24 de novembro de 2020


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Coordenador Diocesano da Pastoral da Comunicação


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