Acessos: 99

A teimosa esperança


Estamos nos aproximando do final de mais um ano, no itinerário anual o mês de novembro é de uma aura de certeza e esperança. Duas celebrações marcam o início deste mês, a Solenidade de Todos os Santos e a comemoração dos fiéis defuntos.

A liturgia da Igreja, repleta de significado, nos provoca à reflexão sobre a existência humana e a transitoriedade das coisas. Nesta perspectiva é lícito e necessário meditarmos sobre nossa vocação de sermos-para-a-vida, ou seja, não só sobre nossa finitude, mas para o além dela, sobre o além túmulo, sobre o nosso desejo de eternidade.

Neste ano, estamos sendo interpelados a todo instante pela certeza de nossa finitude. Diante da pandemia causada pelo novo Coronavírus, vimos de perto e com muita frequência a fragilidade de nossa condição humana. Compreendemos, assim como o salmista, que nossa existência “é semelhante à erva, ela floresce como a flor dos campos. Apenas sopra o vento, já não existe, e nem se conhece mais o seu lugar” (Sl 102, 15-16).

Muitas vezes a certeza da finitude causa em nós angústia, desânimo e desespero, pois nos deixamos dominar pelo pensamento de perda e impotência. Contudo, à luz da ressurreição de Cristo somos levamos a alimentar nossa esperança na eternidade. É como reza a Igreja: “E, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola” (Prefácio dos fiéis defuntos I).

Olhando para os anseios do coração humano, se pode afirmar com certeza que o homem jamais aceitou sua aparente vocação de ser-para-o-nada, demonstrando-se sempre insatisfeito e inconformado com a certeza de sua finitude, alimentado pelo desejo de ir além, rompendo com as amarras de sua condição.

Sedenta pela infinitude a humanidade buscou ao longo de séculos meios para vencer a morte e as consequências da fragilidade de seu corpo. Nesta linha vimos evoluir a ciência na busca pela cura das doenças e superação da contingência das coisas.

É justo e verdadeiro este combate.  Não podemos sucumbir aos sofrimentos desta vida e tão pouco nos eximir de nossa condição mortal. A teimosa esperança nos faz caminhar na tenacidade desta vida em direção à futura, construindo ambientes de paz, verdade e dignidade para todos.

A tomada de consciência de que somos seres finitos deve nos fortalecer na luta por construímos uma realidade presente melhor, mais justa e fraterna para todos. Assim, se encherá de concretude nossa fé e nossa esperança.

Somos peregrinos nesta jornada. Por isso, cada passo, cada decisão, tomados à luz de nossa vocação à vida eterna, onde se manifestará de fato o havemos de ser (cf. 1Jo 3, 2), nos conduzirá ao outro, às suas dores. Portanto, como irmãos, ajudemos uns aos outros a enfrentar as pedras e espinhos do caminho, de modo a chegarmos juntos às moradas eternas.


Nova Friburgo-RJ, 03 de novembro de 2020


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Coordenador Diocesano da Pastoral da Comunicação


Compartilhe