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Maria na história da nossa salvação – Segunda parte


Prosseguindo com nossa reflexão, trazemos a segunda parte do artigo ‘Maria na história da nossa salvação’.

Como afirmou Santo Agostinho, Maria concebeu o Verbo primeiro no coração e só depois no ventre. E na expressão de Santo Irineu e São Justino, padres também da Igreja, ela se tornou a "Nova Eva", como mãe de uma nova humanidade na ordem da graça, substituindo o não dado por Eva, pelo seu sim obediente e humilde, desatando os nós da desobediência original, como Cristo se tornara o "novo Adão", superando o não do primeiro homem e restaurando e redimindo a humanidade, numa nova aliança, pelo seu fiat, no sacrifício da cruz: "Pai, se for possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas a tua!"(Mt 26,39). É a nova criação, na redenção, que se inicia como a primeira, com o "faça-se" de adesão natural, docilidade e palavra-acontecimento (dabah): "Faça-se a luz!".

Mas esta adesão e aceitação disponível à vontade do Senhor não retira da mulher histórica, peregrina e lutadora da fé, os desafios concretos do cotidiano. Coerente com a sua resposta e seu Magnificat, Maria se faz verdadeiramente serva, pondo os pés na estrada para servir a Isabel, sua parenta, vivenciando a missão da caridade fraterna, sabedora de sua vocação de Mãe do Messias. "O Senhor olhou para a pequenez de sua serva e fez em mim maravilhas"." Por isso, todas as gerações me chamarão bem-aventurada". E ouviu o testemunho do Espírito Santo que falou pela boca de Isabel (Lc 1,42): "Bendita és tu entre todas as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Donde a mim a honra de me visitar a mãe do meu Senhor?”.

Viveu a vida simples e despojada de Nazaré, junto ao bom, santo e justo José, na pobreza e dificuldade do nascimento do filho de Deus, na acolhida da profecia da dor sobre o menino como sinal de contradição e sobre a espada da dor que transpassaria seu coração (Lc 2,34-35). Na defesa e proteção da criança, fugindo para o Egito. No trabalho de cada dia, dedicando-se à educação e sustento do filho Jesus, na aflição de sua perda e encontro no templo, entendendo passo a passo a missão concreta e histórica do Messias, guardando e meditando todo o imenso mistério no silêncio do seu coração (cf Lc 2, 41-51).

A mesma Mãe solícita, desde pequena, fiel e ouvinte da Palavra, acompanha o filho, elogiada por Ele, mais pela sua maternidade discipular do que pela honra frisada por alguns sobre sua maternidade física (cf Lc 11,27). Por isso, aparece significativamente na vida pública de Jesus, desde o início, nas núpcias de Caná, intercedendo como Mãe da misericórdia e solidariedade pelos noivos em dificuldade, antecipando os sinais messiânicos de seu filho, unido profundamente a ela pelo Amor libertador e promotor dos homens: "Fazei tudo que ele vos disser", disse a Mãe medianeira e missionária (cf Jo 2, 1-11).

Assim O acompanhou como mulher toda entregue à obra misteriosa de Deus, "avançou na peregrinação da fé" (Lumen Gentium, cap. VIII, 58), forte e confiante, até a cruz (Jo 19,25), associando-se ao sacrifício do seu filho, sentindo com a lança que o atravessava, a profética espada em sua alma. Do alto mesmo do madeiro é dada pelo Redentor como mãe do discípulo-apóstolo, como Mãe da Igreja apostólica (Jo 19, 26-27). Torna-se "Mãe do Cristo total, cabeça e membros", como afirmava Santo Agostinho.

E desta forma estava Maria, a mãe de Jesus, perseverando com os apóstolos, com as mulheres e familiares, unanimemente em oração, para receber o Espírito Santo prometido por Jesus (At 1,14). É a Mãe no Pentecostes impulsionador missionário da Igreja, testemunha de Cristo Ressuscitado. "Finalmente, a Imaculada Virgem, preservada imune de toda mancha da culpa original, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste" (Lumen Gentium, cap. VIII, 59), unindo-se plenamente ao seu filho, como intercessora no mesmo amor de Nazaré e de Caná, na comunhão solidária aos filhos peregrinos, como medianeira, como Mãe e modelo dos discípulos missionários, na mediação subordinada à única mediação redentora de Jesus. 


Nova Friburgo-RJ, 30 de maio de 2022


Pe. Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça
Chanceler da Diocese de Nova Friburgo


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