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A força transformadora do trabalho


A celebração do Dia do Trabalho é a manutenção da memória de uma conquista de grande importância para a humanidade. Em 1º de maio de 1886, milhares de trabalhadores iniciaram uma greve nas fábricas de Chicago, Estados Unidos, exigindo uma jornada laboral de oito horas diárias e condições justas e dignas.

Hoje, mais de um século depois, ainda somos surpreendidos com notícias de homens e mulheres que vivem e convivem em condições ultrajantes de trabalho. Pessoas subjugadas por sua etnia, cor de pele, sexo e idade. A luta permanece constante.

O labor constitui, desde o princípio do mundo, uma dimensão fundamental da existência humana sobre a terra. A Sagrada Escritura ensina que Deus, após criar homem e mulher à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,27), ordena-lhes submeter a terra (cf. Gn 1,28), tornando-os participantes de sua obra criadora.

Refletindo sobre a dignidade da labuta, o Papa Francisco diz que “é o trabalho que torna o homem semelhante a Deus, pois com o trabalho o homem é criador, é capaz de criar, de criar muitas coisas; até mesmo de criar uma família para seguir em frente. O homem é criador e cria com o trabalho. Esta é a vocação. (...) o trabalho tem em si uma bondade e cria a harmonia das coisas - beleza, bondade - e envolve o homem em tudo: no seu pensamento, na sua atuação, em tudo. O homem participa no trabalho. É a primeira vocação do homem: trabalhar. E isto dá dignidade ao homem. É a dignidade que o faz assemelhar-se a Deus. A dignidade do trabalho” (Homilia, 1 mai. 2020).

Infelizmente, a busca desenfreada pelo poder faz com que seja furtado do labor sua bela força transformadora, assumindo um caráter opressivo e penoso. A expansão da economia global e a constante luta pelo lucro agrava a competitividade e limita o valor do homem e do trabalho à produtividade. Merece destaque as significativas mudanças estratégicas para a ampliação dos lucros dos investidores e os consequentes impactos sobre a classe dos trabalhadores (cf. Visita Pastoral do Papa Francisco a Gênova).

A influência da cultura do materialismo faz com que tratemos o trabalho humano como uma mercadoria e a pessoa como uma força anônima, necessária para a produção. Nesta dinâmica, cresce a necessidade de longas jornadas, em detrimento do descanso digno de operário, além da precarização da labuta, causada pelo aumento da terceirização, entre tantas outras situações que privam o trabalhador de sua dignidade. É necessário sempre relembrar que o “trabalho é ‘para o homem’ e não o homem ‘para o trabalho’” (Laborem exercens, 6).

Não se pode cair na tentação de julgar o valor e a dignidade do labor apenas pelas conquistas materiais e financeiras que ele proporciona. Pois, independentemente da finalidade e objeto do trabalho - de todo e qualquer que seja - permanece sempre a pessoa como seu sujeito principal.

Importante lembrar que a missão de submeter a si a terra e tudo o que ela contém, de governar o mundo na justiça e na santidade implica a ordenação de todo trabalho humano à glorificação do nome de Deus por toda a terra (cf. Gaudium et Spes, 34).

Neste sentido, o trabalho humano, “longe de ser desprovido de dignidade, molesto e odioso, é, pelo contrário, uma fonte de alegria, de felicidade e de nobreza” (Fulgens Radiatur, 29). O labor não é apenas uma ação que transforma as coisas provendo o sustento do homem e da sociedade; é, antes de tudo, realização plena do próprio sujeito que executa a ação; por meio do serviço “se aprende muitas coisas, desenvolve as próprias faculdades, sai de si e eleva-se sobre si mesmo. Este desenvolvimento, bem compreendido, vale mais do que os bens externos que se possam conseguir” (Gaudium et spes, 35), fazendo valer assim a sabedoria popular: o trabalho enobrece o homem.


Nova Friburgo-RJ, 03 de maio de 2022


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Assessor Diocesano da Pastoral da Comunicação


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