Nos últimos anos, o corpo místico de Cristo tem sido marcado por chagas profundas: o aumento alarmante do suicídio entre sacerdotes de diversas faixas etárias e tempos de ministério.
São ausências que ecoam como um luto silencioso e nos impõem questionamentos urgentes. Onde estamos falhando? Seria uma lacuna na formação inicial? Uma dificuldade intrínseca de reconhecermos nossa própria humanidade? Ou, talvez, uma carência de acolhimento por parte das autoridades eclesiásticas e uma falta de caridade do povo de Deus diante da finitude do seu pastor?
Sem a pretensão de esgotar as causas sociológicas ou psicológicas, meu desejo é tecer uma mensagem de esperança e apoio aos meus irmãos presbíteros. Somos, como nos lembra o Apóstolo, “vasos de barro nas mãos do Oleiro”. É imperativo que nos deixemos envolver pela ternura Daquele que nos chamou não apesar, mas através de nossas limitações.
Recordo-me de que, ainda na formação filosófica, fomos “cobaias” (com o perdão da expressão descontraída) de um reitor que cursava Psicologia. Ali já percebíamos a resistência: o estigma em torno da saúde mental persiste até hoje. É lamentável observar que, em pleno século XXI, alguns de nós ainda “demonizem” as ciências psíquicas, apelando para um espiritualismo desencarnado que ignora a estrutura emocional do ser humano.
A ciência não anula a fé; ao contrário, uma fé amadurecida compreende que o auxílio profissional é um instrumento de Deus para a manutenção da saúde integral. Bispos, padres e leigos: buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica não é sinal de fraqueza, mas de profunda prudência evangélica.
O Papa Francisco, com coragem profética, já nos alertou sobre o “ambiente doentio” que pode se instalar no clero. O carreirismo, os grupos fechados e a incapacidade de valorizar quem pensa de forma distinta criam um cenário de exclusão. Presenciamos, muitas vezes, a “puxada de tapete” e a indiferença.
Lembro-me de um irmão caluniado injustamente. Enquanto ele sofria, a cúpula — movida por ciúmes de seu fecundo trabalho — aproveitou a vulnerabilidade para persegui-lo. O silêncio cúmplice de seus pares foi ensurdecedor. Para ele, o sol se pôs ao meio-dia; ele viveu a terrível experiência de que “há dias que são noites”.
Que este tempo quaresmal não seja apenas de ritos externos, mas de uma verdadeira metanoia. Que possamos, como exorta o profeta Joel, “rasgar o coração e não as vestes”. Precisamos reconstruir a amizade presbiteral, hoje tão fraturada por guetos e incentivada, por vezes, por quem deveria promover a unidade: nossos superiores.
É necessário desarmar os espíritos. O povo de Deus, em sua maioria, é fonte de carinho e misericórdia, mas não podemos ignorar a “erva daninha” daqueles que perseguem o padre em sua fragilidade. Onde deveria haver apoio e incentivo à cura, por vezes surge o julgamento impiedoso.
Não somos juízes uns dos outros. O único e soberano Juiz age sob a essência do Amor e da Compaixão. Que Deus acolha na Sua luz os irmãos que partiram e que, em nós — bispos, padres e religiosos — desperte uma solidariedade renovada. Que sejamos um abraço que cura, não uma mão que aponta.
Rezemos uns pelos outros, para que nossas noites se transformem, enfim, em aurora.
