Isolamento pessoal

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Queridos irmãos e irmãs, somos protagonistas de um momento único na história da humanidade. Um pequeno vírus foi capaz de abalar as estruturas de todo o planeta. Sem dúvida alguma, os sofrimentos enfrentados nesta pandemia são imensuráveis.

Ao mesmo tempo, esta pandemia tem revelado o quanto temos abandonado valores fundamentais para a sadia convivência social e familiar, destacam-se crises ocultas e ensina que é urgente a retomada de valores fundamentais como a responsabilidade mútua, a caridade e o respeito à dignidade humana.

Retomo neste artigo as palavras do Papa Francisco, já mencionadas nesta coluna: “de uma crise como esta não saímos iguais, como antes; saímos ou melhores ou piores” (31 mai. 2020). Precisamos projetar a vida pós-pandemia com atenção ao que temos descoberto e aprendido neste tempo. Não poderemos continuar errando, fazendo o que temos feito e como estávamos fazendo.

Já refletimos sobre o âmbito social, sobre o que precisamos ter maior atenção e corrigir para garantir maior equidade. Hoje, convido a você leitor a refletir sobre o que poderemos apreender deste tempo de isolamento e distanciamento social para nossa vida particular.

A privação do direito básico de ir e vir, garantido no art. 5º, XV, de nossa Constituição Federal, é sentida por todos nós. Sentimos falta de sair de nossos lares para realizar tarefas básicas desde ir ao mercado até o passeio na praça no domingo à tarde.

Experimentamos também um doído sentimento de solidão por não podermos estar com pessoas que amamos e nos são queridas, de nos abraçar e jogar conversa fora. Ninguém é feliz sozinho! Essa realidade que vivemos nos fez experimentar isso de uma maneira muito dramática.

Contudo, este sentimento parece contraditório se tomarmos por medida como vivíamos antes da pandemia. O ‘corre-corre’ da vida diária nos dividia constantemente entre tantas atividades do mundo de trabalho, na busca de uma melhor condição e posição social, usurpava-nos os momentos de lazer e de convívio com a família, sem mencionar o nosso afastamento de Deus.

Este panorama social e individual já havia sido denunciado pelo Santo Padre na última Exortação Apostólica Gaudete et exultate: “as novidades contínuas dos meios tecnológicos, o fascínio de viajar, as inúmeras ofertas de consumo, às vezes, não deixam espaços vazios onde ressoe a voz de Deus. Tudo se enche de palavras, prazeres epidérmicos e rumores a uma velocidade cada vez maior; aqui não reina a alegria, mas a insatisfação de quem não sabe para que vive” (n. 29).

Todo o sofrimento causado por esta pandemia terá sido inútil se não o aproveitarmos para corrigir nossos erros e construirmos uma sociedade mais justa, mais equitativa, mais cristã.

É urgente determos esta corrida febril e recuperar um espaço pessoal, uma familiaridade concreta e uma comunhão eficaz entre as pessoas. Aproveitemos este tempo para encarar a verdade de nós mesmos, nos encontrar com o melhor de nós e nos deixar invadir pelo Senhor. Façamos desta triste parte da história semente de um futuro feliz.

Nova Friburgo-RJ, 16 de junho de 2020

Dom Paulo Antonio De Conto
Administrador Apostólico da Diocese de Nova Friburgo


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