Quanto vale?

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Caros irmãos e irmãs, estamos vivenciando um momento único e trágico da história. Enquanto muitas pessoas estão sofrendo as consequências de uma pandemia, agravada pela precariedade dos serviços básicos da sociedade, grupos espalhados por toda dimensão do nosso país revelam o descaso com a dignidade dos cidadãos ao valorizar ideais políticos e econômicos em detrimento da dignidade dos iguais.

Reconhecer o valor da vida humana pelo que ela é, e não pelo que ela produz, sustenta a construção de uma sociedade próspera e justa. Este princípio deve ser defendido e vivido por todo cidadão que acredita num futuro melhor para seus filhos.

O Papa Francisco, como uma voz profética, chama atenção de todo o mundo para o descaso para com a vida e dignidade humana, dons preciosos que de Deus recebemos. No alvorecer deste ano, o Pontífice recordou que a vida é sempre digna de máxima consideração e a sociedade merece a qualificação de civil quando reconhece esse valor.

“Uma sociedade merece a qualificação de ‘civil’ se desenvolve os anticorpos contra a cultura do descarte; se reconhece o valor intangível da vida humana; se a solidariedade é praticada e protegida como fundamento de convivência” (Discurso aos participantes da Assembleia Plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, 30 jan. 2020).

A doutrina católica defende a vida humana desde a sua concepção até o seu decurso natural, por entender que é um dom divino e encontra somente em Deus a razão primeira do existir. Reconhecendo que sua origem e seu fim estão em Deus, a Igreja conserva e defende todo o seu valor e toda a sua dignidade.

No panorama atual, infelizmente, vemos descortinar diante de nossos olhos atitudes que, transvestidas de preocupação com o futuro do país, desprezam a dignidade e o direito à vida.

É importante denunciar que esta mentalidade não é prerrogativa desta crise, ela está presente ao longo da história, mas tem a cada dia ganhado força e causando estragos cada vez maiores, acostumamo-nos a tratar pessoas como números, estatísticas. No Brasil, segundo balanço do Ministério da Saúde, atingimos o número de 29.314 mortos e 514.489 casos confirmados de contaminação pelo novo coronavírus (cf. G1, 01 jun. 2020).

Olhando assim, a letra fria no papel, não temos a real noção do enorme sofrimento vivido por estas pessoas e seus familiares. Anulamos o valor de cada ser humano, fantasiando sob a égide de uma estatística alarmante, tornando apenas mais uma estatística que se unirá ao número das mortes causadas pela dengue, por violência, desnutrição, falta de assistência médica, falta de saneamento básico, e tantas outras.

É neste sentido que precisamos entender e atender às palavras pronunciadas pelo Papa Francisco no último Regina Coeli: “Precisamos tanto da luz e da força do Espírito Santo! A Igreja precisa disso, para caminhar em harmonia e corajosamente, testemunhando o Evangelho. E toda a família humana precisa disso, para sair dessa crise mais unida e não mais dividida. Vocês sabem que de uma crise como esta não saímos iguais, como antes; saímos melhores ou piores. Que tenhamos a coragem de mudar, de ser melhores, de ser melhores do que antes e de poder construir positivamente o pós-crise da pandemia” (31 mai. 2020).

Busquemos, com nossas práticas cotidianas, construir uma sociedade que valorize a vida e que saia dessa crise mais unida e não mais dividida.

Nova Friburgo-RJ, 02 de junho de 2020

Dom Paulo Antônio De Conto
Administrador Apostólico da Diocese de Nova Friburgo


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