O desinteresse pela verdade

A voz do pastorCaros amigos, diante do dinamismo de informações e da influência exercida pelas grandes mídias na cultura e comportamento humano, se faz necessário um cuidado atento às desconstruções de conceitos fundamentais para o homem e para a sociedade.

O desinteresse pelo o que é verdadeiro chega ao limite do tolerável. O pensamento pós-moderno, inspirado pela dúvida cartesiana, questiona toda e qualquer verdade absoluta, fazendo que a humanidade viva como se não houvesse mais o certo e o errado.

Regida pelo relativismo, a cultura atual desacredita a secular tradição que compreendia o conhecimento das coisas sob o viés da unidade da razão humana, isto é, sob o conceito absoluto de verdade. Muitas são as investidas socioculturais que tendem construir um itinerário de fragmentação deste conceito. Contrárias a todo e qualquer projeto de unidade, funda o conhecimento da realidade na multiplicidade do mundo dos sentidos. Cada qual, por sua experiência, constrói a sua própria verdade.

O Papa Francisco no início de seu pontificado, relembrando as palavras de seu predecessor, denuncia a ‘ditadura do relativismo’ que invade nossas escolas e casas, colocando em perigo a sadia convivência entre os homens. “Sem a verdade, não há verdadeira paz. Não pode haver verdadeira paz, se cada um é a medida de si mesmo, se cada um pode reivindicar sempre e só os direitos próprios, sem se importar ao mesmo tempo com bem dos outros, com bem de todos, a começar da natureza comum a todos os seres humanos nesta terra (Discurso ao Corpo diplomático, 22 mar. 2013).

Infelizmente, acompanhamos o surgimento de várias ideias que atentam contra a imutabilidade da lei natural. Ideologias como a de gênero, por exemplo, agem diretamente contra o princípio de verdade. Dizer que a sexualidade de cada pessoa é algo subjetivo desconexa da objetividade do corpo é, no mínimo, fechar os olhos e negar o princípio lógico da identidade.

“O perigo da ‘colonização’ das consciências por uma ideologia que nega a certeza profunda segundo a qual o ser humano existe como homem e mulher, a quem foi dada a tarefa da transmissão da vida; essa ideologia que chega à produção planejada e racional dos seres humanos e que – talvez por algum motivo considerado ‘bom’ – chega a considerar lógico e lícito cancelar aquilo que já não se considera criado, doado, concebido e gerado, mas feito por nós mesmos” (Papa Francisco).

A Lei Natural é o fundamento moral indispensável para edificar a comunidade dos homens e para elaborar a lei civil. E a negação de sua universalidade e imutabilidade torna impossível a edificação de uma comunhão real e duradoura com o outro. Quem se autoproclama medida única das coisas e da verdade não pode conviver e colaborar com os próprios semelhantes (cf. Compêndio da Doutrina Social, 142).

O obscurecimento da percepção da universalidade e imutabilidade da verdade contida na lei natural, gera uma cisão entre a liberdade dos indivíduos e a natureza comum a todos. Contudo, São João Paulo II explica que, enquanto exprime a dignidade da pessoa humana e põe a base dos seus direitos e deveres fundamentais, a lei natural é universal nos seus preceitos e a sua autoridade estende-se a todos os homens (cf. Veritatis Splendor, 51).

Assim, auxiliados por Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. Jo 14,6), esforcemo-nos para que os nossos atos edifiquem, na caridade, a comunhão entre as pessoas e a promoção do reino de justiça e paz. Estejamos atentos para que nenhum dos nossos sejam seduzidos por qualquer vento de vã doutrina (cf.Hb 13,9).

Dom Edney Gouvêa Mattoso, Bispo Diocesano de nova Friburgo