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Um olhar mais profundo


A Solenidade do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou Corpus Christi, é um convite aos cristãos para aprofundarem o olhar da fé na presença real de Deus no mundo, por meio da presença real e substancial de Jesus na Hóstia Consagrada. Sem este olhar mais profundo, torna-se quase impossível sentirmos que Deus caminha conosco. Por isso, devemos rezar muitas vezes como o cego pediu a Jesus: “Senhor, que eu veja” (Mc 10, 51). Antes, porém, de refletirmos sobre tal realidade, convém recordarmos brevemente a história dessa solenidade.

Foi o Papa Urbano IV quem instituiu no calendário anual da Igreja a Solenidade de Corpus Christi, no ano de 1264, motivado pelos recentes milagres eucarísticos e pelas revelações particulares que Santa Juliana de Mont Cornillon recebera em 1208. Nestas revelações, a santa via uma lua luminosa incompleta que significava a Liturgia Anual da Igreja, na qual faltava uma festa inteiramente dedicada à presença real de Jesus na Eucaristia. De certa forma, a liturgia da Quinta-feira Santa, Missa do Lava Pés ou Missa da Ceia do Senhor, cumpria tal função, porém, com o enfoque na instituição da Eucaristia e do sacerdócio ministerial. Faltava enfatizar a real presença de Cristo no Sacramento.

Instituída a Solenidade, o Papa Urbano IV convocou os melhores teólogos da época, dentre eles, Santo Tomás de Aquino, para que compusessem os textos litúrgicos da celebração. Por unanimidade, os textos de Santo Tomás foram escolhidos e o hino composto pelo mesmo santo, Tão Sublime Sacramento, bastante conhecido por nós em sua parte final, traz uma frase desconcertante e desafiadora: O milagre nós não vemos, basta a fé no coração. Tal foi a exigência que Jesus fez a Tomé: “Felizes os que crerão sem ter visto” (Jo 20, 29).

Essa é a condição pela qual precisamos passar se quisermos experimentar como é consoladora a presença de Jesus; é a condição da própria fé, caso contrário não seria fé, mas visão. E é simples: não é preciso ser grande teólogo, pois basta a fé no coração. E se basta a fé, há muitas coisas que sobram dentro de nós, impedindo a visão: orgulho, egoísmo, medo, tristeza. É preciso fechar os olhos da carne e abrir a visão do coração e acreditar no amor, o qual é uma realidade invisível e sem ele não há motivo para viver. As realidades invisíveis nos desafiam ao olhar mais profundo, para além da capacidade de raciocínio, a partir e para além dos símbolos que se usam na Santa Missa. Aí sim, depois que amamos, tudo se torna claro e se materializa o amor. A cruz de Cristo é a materialização suprema do seu supremo amor por nós.

Quando, por exemplo, prestamos atenção no rito do ofertório, onde o padre derrama uma pequena gota de água no cálice com vinho, não podemos achar que se trata de mero ritualismo. Ali está representada nossa humanidade que, em contato com a divindade de Cristo, totalmente presente no vinho consagrado, se dilui e se transforma no próprio Senhor. Nossas misérias são absorvidas e dissipadas pela infinita misericórdia de Deus, e nós somos transportados pelos braços do Bom Pastor, que cura todas as feridas.

Mas apesar de o rito eucarístico usar de simbolismo, todavia, não estaciona no campo simbólico. Ele tem a capacidade de nos fazer adentrar no mistério celebrado, desde que tenhamos fé. E mais! O símbolo desemboca na realidade mesma: Cristo está presente e vivo no altar, pelas mãos do sacerdote; presente realmente. Não que isso queira dizer que suas outras presenças não sejam reais: no pobre, no doente, na assembleia reunida, na Palavra. Mas que, por uma afirmação mais taxativa, a Igreja quer expressar que não se trata apenas de um sinal, mas sim um milagre. Contudo, a via do rito é de mão dupla: para que tenha efeito na vida de quem participa, a celebração que acontece no altar precisa do olhar da fé. Caso contrário, não passará de mera repetição de gestos sem sentido.


Nova Friburgo-RJ, 09 de junho de 2020


Pe. Celso Henrique Macedo Diniz
Pároco da Paróquia Santa Maria Madalena, em Santa Maria Madalena


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