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Ouvir a voz de Deus


Durante este mês de setembro, temos refletido sobre o valor da escuta. Já consideramos que vivemos uma cultura que limita as relações e nos afasta da responsabilidade que temos uns com os outros. Fruto de um egocentrismo exagerado, a humanidade tem se tornado surda às dores e angústias alheias.

Mas esta surdez também nos impede de ouvir a Palavra de Deus e de nos deixar formar por ela. A Sagrada Escritura sempre denunciou o fechamento do coração humano em acolher os planos de Deus. Tendemos a nos fechar em nós mesmos e viver a vida como se ela fosse nossa de modo absoluto. É o que denuncia, por exemplo, o Profeta Jeremias: “Escutai, prestai ouvidos, não sejais orgulhosos, porque o Senhor falou” (13,15).

Esta palavra ecoa ainda hoje pelos lábios de santos profetas de nosso tempo. O saudoso Dom Henrique Soares (1963-2020) em suas homilias denunciava este modo egoísta de ser do nosso tempo: “Nossa civilização ocidental, do alto da sua ilusória autossuficiência, tem sido particularmente fechada à Palavra do Senhor: construímos a sociedade e construímos nossa vida privada, nossos valores morais, nossas escolhas, do nosso modo, sem realmente ouvir a proposta e o caminho que o Senhor nos indica. Reunimos e escutamos os especialistas: economistas, antropólogos, sociólogos, sexólogos, psicólogos, cientistas da religião... mas, para nós, o Senhor não tem mais nada a dizer! Os gurus são os economistas e psicólogos, é o intelectual de moda, o sabichão de plantão, são os livros de autoajuda... Somos uma geração de surdos!”

Não podemos nos deixar levar por pensamento tão vazio. O Senhor falou e continua a falar e tem muito a dizer e dos mais diversos modos. É preciso abrir os olhos, ouvidos e o coração para escutá-lo.

A palavra de Deus não aprisiona nem confere status e autoridade, mas é dirigida aos corações humildes. Ao longo da História da Salvação, Deus escolheu homens simples, humildes que se punham a serviço da comunidade.  Infelizmente, contagiados pela cultura do poder, muitos dos escolhidos tratam essa escolha como motivo de superioridade e desejam reprimir o anúncio daqueles que não fazem parte do grupo. E, assim, não escutam a voz de Deus dirigida também a eles.

É ainda pior, quando a Palavra de Deus é instrumentalizada para se adquirir privilégios, para oprimir e subjugar. Lamentavelmente, está cada vez mais comum encontrar no cenário sociopolítico quem jogue culpa, medo e dependência sobre os indivíduos ‘comuns’, utilizando-se da autopromoção, como se detivesse autoridade e exclusividade sobre a interpretação da Sagrada Escritura. Ou ainda, quem faz carreira sobre a égide de ‘homem de Deus’ e não defende a justiça e a dignidade humana.

Precisamos deixar os lugares de aparente superioridade, romper com a ‘Cultura do cancelamento’ e ouvir Deus falar também por quem, aparentemente, tem pouco a nos falar sobre Deus.


Nova Friburgo-RJ, 28 de setembro de 2021


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Assessor Diocesano da Pastoral da Comunicação


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