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Onde está o teu coração?


No último domingo (30/8), a liturgia da Igreja apresentou na primeira leitura o trecho do livro do Profeta Jeremias: “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder” (Jr 20,7). Estas belíssimas palavras expressam a rendição do profeta diante do poder sedutor da vocação e missão dada por Deus.

Não é fácil o seguimento! Em seu desabafo, este homem de Deus relata que sua obediência à vontade divina o tornou alvo de chacota e zombaria. Mas, com o coração ancorado na certeza do amor do Senhor, segue fiel ao chamado.

Ao contemplar a vida de Jeremias, Francisco, Clara, Dulce, Teresa de Calcutá, e tantos outros homens e mulheres que se deixaram seduzir pelo Senhor, surge em nossos corações o questionamento: o que justifica essa entrega, esse abandono de si? E ainda: será que no contexto e cultura atual ainda há espaço para este chamado?

O Papa Francisco no início de seu pontificado falou sobre este desejo de eternidade que move o coração do cristão.  Refletindo as palavras evangélicas “Onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração” (Lc 12, 34), o pontífice afirmou que este desejo se alimenta na esperança de nos encontrarmos com o Senhor, juntamente com os irmãos, com os companheiros de caminho.

“Todos nós temos um desejo. Pobre daquele que não tem desejos; o desejo de ir em frente, rumo ao horizonte. Gostaria de vos dirigir duas perguntas. A primeira: todos vós tendes um coração desejoso, um coração que deseja? Pensai e respondei em silêncio no vosso coração: tu tens um coração que deseja, ou um coração fechado, um coração adormecido, um coração anestesiado pelas situações da vida? O desejo de ir em frente, ao encontro de Jesus. E a segunda pergunta: onde está o teu tesouro, aquele que tu desejas? e eu pergunto: onde está o teu tesouro? Qual é para ti a realidade mais importante, mais preciosa, a realidade que atrai o meu coração como um ímã? O que atrai o teu coração? Posso dizer que é o amor de Deus? Há o desejo de fazer o bem ao próximo, de viver para o Senhor e para os nossos irmãos? Cada um responda no seu coração. Mas alguém pode dizer-me: mas Padre, eu trabalho, tenho família, para mim a realidade mais importante é ocupar-me da minha família, do trabalho... Sem dúvida, é verdade, é importante. Mas qual é a força que mantém a família unida? É precisamente o amor, e quem semeia o amor no nosso coração é Deus, o amor de Deus, é mesmo o amor de Deus que confere sentido aos pequenos compromissos diários e que ajuda também a enfrentar as grandes provações. Este é o verdadeiro tesouro” (Ângelos, 11 ago. 2013).

Ainda neste pensamento, prosseguiu o Santo Padre. “Mas no que consiste o amor de Deus? Não é algo vago, um sentimento genérico. O amor de Deus tem um nome e um rosto: Jesus Cristo, Jesus. O amor de Deus manifesta-se em Jesus. Trata-se de um amor que confere valor e beleza a todo o resto; um amor que dá força à família, ao trabalho, ao estudo, à amizade, à arte e a cada obra humana. E dá sentido também às experiências negativas, porque este amor nos permite ir além destas experiências, ir mais além, sem permanecer prisioneiros do mal, mas impele-nos além, abrindo-nos sempre à esperança. Eis, o amor de Deus em Jesus sempre nos abre à esperança, àquele horizonte de esperança, ao horizonte final da nossa peregrinação. Assim, até as dificuldades e as quedas encontram um sentido. Até os nossos pecados encontram um sentido no amor de Deus, porque este amor de Deus em Jesus Cristo nos perdoa sempre, nos ama a ponto de nos perdoar sempre” (Ângelos, 11 ago. 2013).

Esta reflexão do Papa Francisco é muito atual. Precisamos todos os dias questionar o que nos move para seguirmos na busca pelo tesouro que nem a traça nem a ferrugem consome (cf. Mt 6, 20).


Nova Friburgo-RJ, 01 de setembro de 2020


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Coordenador Diocesano da Pastoral da Comunicação


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