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A instabilidade do mundo


Em tempos de crise, muito se propõe a resiliência. Um termo originário da física e diz respeito à propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original, após terem sido submetidos a uma deformação elástica. Em seu sentido figurado, é a capacidade de se recobrar facilmente ou de se adaptar à má sorte ou às mudanças.

É certo que não se pode parar na dificuldade ou nos problemas que se nos impõe. É necessário seguir em frente. Como diz o grande compositor Paulo Vanzolini, numa queda o importante é levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Mas, de onde podemos tirar forças para levantar? Como poderemos prosseguir se os sonhos se tornaram utopias e as expectativas foram frustradas?

Repetidas vezes temos que convier com pensamentos de desânimo e vazios de esperança. Talvez isto seja consequência do lugar em que estejamos ancorando o nosso coração (cf. Mt 6, 21) e da significação que damos ao momento vivido.

A resiliência é uma virtude admirável, mas não pode ser alcançada sem uma meta, sem um ‘porquê’ e um ‘para quê’. Diferentemente do proposto em seu conceito para a física, sempre que enfrentamos uma adversidade não saímos iguais. Isto foi o que disse o Papa Francisco na ocasião da Solenidade de Pentecostes: “Das grandes provas da humanidade, e entre eles a pandemia, se sai melhor ou pior. Não se sai da mesma forma” (30 mai. 2020).

No último domingo (23 ago.), a liturgia nos levou à seguinte oração: “Ó Deus, que unis os corações dos vossos fiéis num só desejo, dai ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis, para que, na instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias” (Oração do dia, 21* domingo do tempo comum).

Assim compreendemos que o princípio para um processo resiliente diante da instabilidade do mundo é a capacidade de voltar o olhar para além da fase difícil, para além dos problemas, agarrando-se com fé e determinação na esperança de que as dores desta vida não se podem comparar às alegrias reservadas por Deus para todos nós.

Apesar de nossa fragilidade nos fazer questionar este amor de Deus, somos surpreendidos todos os dias pelas provas de sua existência e proximidade. O Santo Padre nos adverte que “as perguntas angustiantes sobre o mal não desaparecem repentinamente, mas encontram no Ressuscitado o fundamento sólido que não nos deixa naufragar” (Audiência Geral, 08 abr. 2020).

Repito, não é fácil se reerguer. Dói, dói muito, mas não podemos nos esquecer que a ressurreição acontece depois da cruz. Nosso Senhor com sua morte venceu a morte e nos garantiu a vida. Não fiquemos estagnados na cruz. Olhemos para ela como sinal e certeza da vida, que nasce do sofrimento.

Lembre-se, não estamos sozinhos. Temos um Deus que com seu amor gratuito nos reuniu como irmãos. Por isso, seja aquele que estende a mão, doa o coração e é sinal e presença de Deus para aquele que sofre. Pois, certamente, assim suas dores encontrarão sentido e serão também elas salvíficas.  


Nova Friburgo-RJ, 25 de agosto de 2020


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Coordenador Diocesano da Pastoral da Comunicação


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