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A fuga do sofrimento


Diante do sofrimento, a primeira atitude do homem é a fuga, o querer se livrar dele, haja visto que o sofrimento se apresenta como uma ameaça para sua felicidade. É difícil ao homem relacionar a beleza de toda a criação de Deus com as contrariedades que o afligem.

O Papa Emérito Bento XVI afirma não servir para nada uma visão de mundo que não consegue dar sentido ao sofrimento, e nos instiga a vê-lo como algo precioso. Em seus ensinamentos o pontífice demonstra, com maestria, as deficiências dos pensamentos que combatem o sofrimento.

Devemos – é verdade – fazer tudo por superar o sofrimento, mas eliminá-lo completamente do mundo não entra nas nossas possibilidades, simplesmente porque não podemos desfazer-nos da nossa finitude e porque nenhum de nós é capaz de eliminar o poder do mal, da culpa que – como constatamos – é fonte contínua de sofrimento” (Spe salve, 36).

Algumas correntes filosóficas, e até mesmo religiosas, pregam a possibilidade de uma vida sem sofrimento, desenvolvendo, assim, uma apatia diante do mesmo. Esta intenção de esquivar-se das angústias se dá numa dupla vertente. O estoicismo, que estabelece um conjunto de preceitos racionais, e também a religiosidade asiática, busca atingir um completo esvaziamento interior que dá ao homem um domínio tal sobre si, que o faz capaz de anular qualquer dor ou sofrimento. Já o epicurismo ensina ao homem a técnica de suprimir o sofrimento com o exercício do prazer.

Estas correntes, cada vez mais dissolvidas no modo de pensar contemporâneo, podem até alcançar um certo virtuosismo, mas acabam por desembocar no orgulho que nega o ser do homem, reavivando o desejo que moveu o pecado original (Cf. RATZINGER, J. Escatología: la muerte y la vida eterna. p. 87-88).

A gama de sofrimento existente no mundo parece refutar a existência de Deus, ou mesmo atestar sua pequenez e simplicidade. Levada pelo desespero e pela angústia a humanidade sede à tentação de assumir o lugar de um Deus. Esta postura, fundada numa equivocada compreensão do sofrer, nos estimula a acreditar que a justiça deve ser imposta a qualquer preço, relegando a segundo plano a esperança.

É inegável a urgência em evitar o sofrimento dos inocentes, ou mesmo diminuir suas dores. Neste propósito, instaura-se a justiça e a caridade, exigências fundamentais da existência cristã e de cada vida verdadeiramente humana (cf. Spe Salve,36).

Esta forma de combater o sofrimento difere da ação dos que tentam anulá-lo. A tentativa de eliminar toda adversidade induz o homem a uma vida vazia, na qual impera a solidão e a obscura sensação da falta de sentido. Conclui-se, deste modo, que “não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo, que sofreu com infinito amor” (Idem, 37).

A partir de então, insere-se no conceito de sofrimento a íntima relação com o amor. Considerando, pois, o amor como um sair de si, de sua realização pessoal da cômoda tranquilidade, não há possibilidade de desvinculá-lo do sofrimento. E, diante desta relação, há de se considerar que o sofrimento move o homem ao amor e à compaixão. O amor sem a renúncia de si torna-se verdadeiro egoísmo, e anula-se a si próprio.

Sem este princípio é impossível construir uma sociedade que seja sensível aos que sofrem. Pois, sem o amor, não há abertura ao outro. O sofrer com o outro, pelo outro e por amor da verdade e da justiça são elementos fundamentais da humanidad


Nova Friburgo-RJ, 11 de agosto de 2020


Pe Aurecir Martins de Melo Junior
Coordenador Diocesano da Pastoral da Comunicação


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