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Desacreditar da verdade


A busca pela verdade sempre motivou a humanidade. Desde a era clássica, pensadores como Sócrates, Platão e Aristóteles divagaram exaustivamente sobre ela no intuito de defini-la e identificá-la no agir humano e social.

A mesma questão instigava Pôncio Pilatos. Diante daquele que é a própria verdade, o governador romano releva a angústia do seu coração: “O que é a verdade?” (cf. João 18, 37-38). No seu silêncio, Jesus vai além da conceituação do termo. Ele revela que a verdade é a retidão do agir e da palavra humana, sem duplicidade, simulação e hipocrisia (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2468).

É certo que a cultura relativista e individualista perpetrada na sociedade hodierna, tem afogado no coração do homem o amor à verdade. Vivemos como se ela não mais importasse ou até mesmo inexistisse. Vivendo fechado na cela do seu egoísmo e alimentado pelo desejo de satisfação pessoal, o homem produz um mundo estéril de relações supérfluas e interesseiras.

O Papa Emérito Bento XVI, define a verdade como um ‘lógos’ que cria ‘diá-logos’ e, consequentemente, comunicação e comunhão. Santo Tomás de Aquino ressalta sua importância para a sadia relação entre os homens, pois ela é condição sine qua non para a confiança recíproca (cf. Summa theologiae, 2-2, q. 109, a. 3).

O relativismo da verdade, presente no contexto atual e cultural, tende a dificultar a construção de uma boa sociedade e de um verdadeiro desenvolvimento humano integral. A vivência em comunidade sem o valor absoluto da verdade é frágil. Sempre que as opiniões se divergirem, germinará a semente do ódio e da divisão, e se anulará qualquer possibilidade de ajuda mútua.

Sem a verdade, a caridade acaba confinada num âmbito restrito e carecido de relações; fica excluída dos projetos e processos de construção dum desenvolvimento humano de alcance universal, no diálogo entre o saber e a realização prática” (Caritas in veritate, 4).

O escritor e filósofo russo Fiódor Dostoiévski adverte para o risco de uma vida ancorada na mentira. “Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega a pontos de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor, e assim começa a deixar de ter estima de si mesmo e dos outros. Depois, dado que já não tem estima de ninguém, cessa também de amar, e então na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais e, por culpa dos seus vícios, torna-se como uma besta; e tudo isso deriva do mentir contínuo aos outros e a si mesmo” (Os irmãos Karamazov, II, 2).

Assim, a desvalorização da verdade tende a dividir a humanidade em pequenos grupos polarizados que defendem a todo preço suas próprias ‘verdades’, fechados ao diálogo e ao crescimento.

Vivemos um contexto muito polarizado. A facilitação da divulgação das opiniões pelas mídias sociais faz agravar ainda mais diferenças, muitas vezes fundamentadas em inverdades. Com o intuito de defender as ideologias, rompe-se com facilidade a barreira da dignidade e da justiça, promovendo o descrédito do outro, forçando sua representação como inimigo fomentando os conflitos (cf. Mensagem o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 13 mai. 2018).

A construção de um mundo melhor e mais justo só será possível se nos comprometermos com a busca da verdade em todas as relações. A busca do homem pela verdade e o questionamento sobre a realidade ganha sentido à luz da eterna Verdade, que é Jesus. Por isso, façamos a experiência de propagar com austeridade o Evangelho, lembrando-nos sempre que todo o que é da verdade ouve a voz de Cristo.


Nova Friburgo-RJ, 04 de agosto de 2020


Pe. Aurecir Martins de Melo Junior
Coordenador Diocesano da Pastoral da Comunicação


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